| "Nicarágua: Daniel, o enganador", por Luís Branco |
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Incluir Daniel Ortega no leque dos políticos de esquerda a chegar ao poder na América Latina no século XXI é um pouco arriscado. Desde que saíu do governo em 1990, derrotado por Violeta Chamorro, a trajectória política de Ortega à frente da Frente Sandinista (FSLN) traduz‑se na capitulação absoluta em nome de um único objectivo: voltar a alcançar o poder. Até o conseguir em Novembro passado foi duas vezes derrotado nas presidenciais, em 1996 e 2001. Neste período, fez um pacto com um dos políticos mais corruptos da história do país, Arnoldo Alemán, o antigo apoiante da ditadura Somoza que derrotou Ortega em 1996. O seu mandato ficou marcado por sucessivos escândalos de enriquecimento ilícito do presidente e seus familiares, terminando classificado pela ONG Transparency International no top ten dos governantes mais corruptos dos últimos 200 anos. Os acordos firmados entre a FSLN e o Partido Liberal Constitucionalista (PLC) permitiram-lhes dividir entre si os cargos do Estado, incluindo as instâncias judiciais, levando-as ao descrédito por parte da população que assiste indignada a um inédito regime especial que permite ao ex-presidente Alemán continuar a passear-se pelas ruas de Manágua, após ter sido condenado a 20 anos de prisão por lavaghem de dinheiro e corrupção. Nada disto podia ter sido feito sem uma operação de limpeza interna do partido de que Daniel Ortega se encarregou pessoalmente. Muitos dizem que o sandinismo deu lugar ao danielismo: o balanço da experiência de poder e das causas da derrota em 1990 e do rumo que o partido levava com a política de alianças de Ortega deu origem ao afastamento de vários dirigentes históricos da FSLN. A situação mais escandalosa está na administração da justiça, que permite que alguns dos maiores narcotraficantes do país, detidos pela polícia, gozem de uma impunidade de facto da parte dos tribunais sob o controlo político do pacto bi-partidário. Outro ponto importante da aliança entre a FSLN e os liberais foi a revisão da lei eleitoral, que permite a um partido com mais de 35% ganhar as eleições sem segunda volta, desde que o segundo partido mais votado fique 5% abaixo do primeiro. Foi graças à mudança do limite de 45% para 35% isto que Ortega conseguiu ser eleito com menor percentagem (38%) do que havia obtido na derrota de 2001 (42%). Antes da campanha eleitoral de Novembro passado, Daniel Ortega assegurou as boas graças do cardeal Miguel Obando, o arcebispo de Manágua, inimigo da revolução sandinista e conhecido apoiante dos contras. Em troca deu um dos direitos consagrados na lei há mais de um século e símbolo do progresso do país, o que permitia o aborto terapêutico nos casos de risco de vida da mulher ou de violação. Vinte e oito deputados da FSLN votaram a favor da proibição do aborto, punindo-o com quatro a oito anos de prisão. No discurso de Ortega é omnipresente a ideia de “reconciliação nacional”. Na campanha eleitoral trocou o hino da FSLN, onde a certa altura se canta um incómodo “luchamos contra el yankee enemigo de la humanidad” pelo mais reconciliatório “Give Peace a Chance” de Lennon. As alianças políticas em nome dessa reconciliação culminaram na indicação, aprovada pela FSLN, dum ex-banqueiro da confiança de Somoza como vice-presidente da candidatura de Ortega em 2006. Morales Carazo foi dos que nunca abandonaram o apoio à ditadura, e depois da queda de Somoza torna-se um dos líderes políticos dos contras, representando os pontos de vista da guerrilha e dos EUA nas negociações com os sandinistas. Com a saída da FSLN do poder nas eleições de 1990, Morales Carazo torna-se no principal conselheiro de Arnoldo Alemán e com ele vai vencer Ortega nas presidenciais. Foi ele também um dos arquitectos do pacto de divisão do poder que consuma a capitulação da FSLN, cujos dirigentes passam a dar mais importância aos cargos e recompensas obtidas do que ao compromisso com o povo que os elegeu, tendo alguns feito carreira de empresários de sucesso. Um bom retrato das reviravoltas da história recente na Nicarágua é a história da mansão onde vive o agora presidente Daniel Ortega, confiscada na Revolução sandinista junto com boa parte as fortuna do actual vice-presidente Morales Carazo. A imprensa internacional apresenta ainda hoje Ortega com o habitual rótulo de populista de esquerda, com discurso anti-imperialista na órbita de Fidel e Chávez. Embora ambos tenham saudado efusivamente a vitória de Ortega, não é verdade que partilhem da mesma leitura quanto ao avanço do neo-liberalismo na América Latina. Não é preciso recuar muito no tempo para recordar a luz verde dada pelo líder da FSLN ao Acordo de Livre Comércio da América Central, uma das prioridades legislativas da administração Bush que vai tornar ainda mais dependentes as economias da Costa Rica, El Salvador, Guatemala e Honduras, com a frágil estrutura agrícola a passar depressa para as mãos dos gigantes do agro-business. A assinatura do acordo por parte de Manágua foi dada com o aval de parlamentares da FSLN. A evolução da FSLN desde 1990 é uma história da decadência da esquerda que se rende às benesses do capital e do aparelho político que o sustenta. Se já havia sinais dessa decadência durante os governos de Ortega, eles agravaram-se no período da transição de 1990 — que ficou conhecida por la piñata —, altura em que algumas das propriedades confiscadas pela Revolução acabaram nas mãos dos governantes derrotados nas urnas. Em todo o caminho percorrido desde a transição até ao regresso vitorioso de Ortega à presidência, em todas e em cada uma das alianças com a direita, está a prova de que a sede de poder prevaleceu sempre sobre o compromisso com os ideais e as esperanças os que lutaram por uma Nicarágua livre da miséria, da opressão e da corrupção. *Luís Branco é dirigente da APSR e director desta revista |
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