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"Terá o governo boliviano gás suficiente?", por Carlos Carujo
Há algum tempo que da América Latina vão chegando notícias que nos deixam a ideia de que algo nos escapa. Não é por escassearem que pensamos não ter informação suficiente para conseguir fixar o pensamento. Não é só por serem em demasia e chegarem em caudais turbulentos que sentimos saber ainda tão pouco. Os quadros teóricos diversos e grelhas ideológicas atravessam os factos, fazem malabarismos interessantes com eles, e apesar de tudo o mesmo sentimento permanece.

A Bolívia é parte de um novo mapa político actual para o qual não temos ainda uma geografia segura. Até porque as geografias politicas nunca são estáveis. Mas também porque nos habituámos a pensar a resistência. E as notícias periódicas de lutas duras contra uma realidade dura faziam parte desse panorama.

Com a história lida-se mais facilmente: a ditadura seguida de um processo de privatizações a partir de 1985 (o decreto 21060 poderia ser o início desta história), os despedimentos e a derrota da esquerda sindical mineira tradicional (a COB, Central Operária Boliviana, apoiava grande parte da sua força neste sector), as soluções guerrilheiras (nas quais se formaram alguns dos personagens da história actual do país como o actual vice-presidente).

E agora o tempo de Evo. Um presidente da República que é um índio Aymara, e é presidente de seis Federações de plantadores de folha de coca, que já foi pedreiro, padeiro, trompetista, futebolista e criador de lamas. Personagem popular, a roçar por vezes a demogogia, pois claro.

Jogam como atenuantes para a nossa indefinição mental a indefinição do próprio processo: o mais fácil é dizer que ele não está decidido, que previsões só no final do jogo. Alguns dos elementos são de difícil leitura, algumas medidas e acontecimentos são resolutamente ambíguos, mesmo contraditórios. A esquerda nacionalista de Morales não pode ser classificada como meramente social-democrata e ora parece confrontar de peito aberto o neo-liberalismo ora parece estar a um passo de escorregar para o lulismo. Discursos e práticas que por vezes não se encontram e um processo que ora parece ser original, ora parece um apenas um epifenómeno do chavismo.

Para compreender o processo político boliviano teríamos de ter a capacidade de compreender o que, para lá do folclore político, está a mudar definitivamente nesta que é uma das muitas pátrias da pobreza (com cerca 75% da população abaixo do limiar da pobreza, e com recursos abundantes: minas de estanho, ouro, cobre, prata, zinco, petróleo, as segundas reservas de gás natural da América Latina).

A todo o gás

A história recente dos movimentos sociais na Bolívia é radical e as suas vitórias alimentaram a esperança de que mudanças profundas na realidade se tornassem possíveis.

Em 2000, uma revolta indígena Aymara com uma lista de exigências claramente anti-capitalistas e indigenistas, liderada por Quispe (MIP), dura três semanas, organizada de forma mista através das estruturas de governância tradicionais das comunidades indígenas e das estruturas da federação sindical de camponeses (CSUTCB) – que Quispe tinha liderado desde 1998, pouco depois da sua libertação da prisão, na sequência da organização de um movimento guerrilheiro. Apesar de tudo, seria apenas um pequeno sinal se comparado com as dimensões dos movimentos sociais de resistência que se desenrolavam e se desenrolariam.

É nas denominadas “guerras da água”, em Abril de 2000, que os movimentos populares vão sentir uma das suas primeiras grandes vitórias ao conseguir expulsar a empresa americana Betchel que geria os serviços de água de El Alto e La Paz e que pretendia um aumento de mais de 300% no preço da água em poucas semanas. Em Cochabamba, uma mobilização que junta cocaleros, operários e estudantes triunfa. Um novo ciclo se consolidava na construção de uma nova esquerda, indígena e camponesa, mobilizada e mobilizadora e pronta a recorrer aos bloqueios de estrada, às ocupações de cidades, a todo um conjunto variado de formas de luta.

E depois será a chamada “guerra do gás” que soma outra vitória decisiva, em 2003, a queda do presidente Sánchez de Lozada. Pouco antes, em Fevereiro de 2003, quando uma missão do FMI exigiu do governo um pesado imposto sobre os salários para suprir o deficit, já a revolta popular tinha estalado e obrigado o presidente a fugir do palácio presidencial. Quando seis meses mais tarde o consórcio Pacific LNG (Repsol YPF, British Energy e Panamerican Energy) quis impor a exportação do gás natural boliviano para os mercados do México e da Califórnia a preço da chuva e com a benção presidencial, o movimento social respondeu resolutamente a delapidação dos recursos do país: quinze dias de protestos e insurreição indígena camponesa a que o poder respondeu com a repressão habitual. A vitória pagou-se caro, tendo resultado em 67 mortos e cerca de 400 feridos. Mas a demissão e fuga para os EUA do presidente deu um sinal claro de que a realidade estava a mudar.

Por isso, e para escapar à pressão popular, o seu sucessor, Carlos Mesa (com o apoio de Morales) organiza um referendo sobre os hidrocarbonetos em Julho de 2004, com 70% a favor da sua recuperação para a esfera pública. Na sequência desta votação o congresso votará uma lei aumentando a intervenção estatal no sector petrolífero e criando um imposto directo sobre os hidrocarbonetos de 32 % (o que somado ao 18 % em vigor sobe para 50 % a receita do estado). A lei é saudada pelo MAS de Morales, mas deplorada por outros sectores das lutas sociais como a COB e o MIP, defensores de uma lei de expropriação, que acusam Morales de traição. Constituindo estas divisões a pré-história recente de muitas das divisões actuais na esquerda boliviana.

Pouco depois houve uma “segunda” guerra da água que expulsou a multinacional francesa Suez-Lyonnaise. A multinacional geria os serviços de água que eram da multinacional americana, através de uma filial a Águas del Illimani SA (AISA), que tinham sido privatizados por Lozada. Em certos bairros o aumento do preço da água chega aos 600 %. No final de 2004, o anúncio de mais vantagens dadas pelo governo à empresa à custa das populações da periferia vantagens que incluem o pagamento de serviços não prestados (40 mil famílias permaneciam sem água potável segundo o próprio governo) despoleta nova resposta dos movimentos sociais: a federação das associações de bairro (FEJUVE) força Carlos Mesa a romper o contrato. Somado a estes, o movimento dos cocaleros, agricultores que encontraram na plantação tradicional da folha da coca o seu meio de sobrevivência e que tiveram de lutar contra o preconceito que os assimilava aos traficantes de cocaína, não para de crescer. O próprio Evo Morales é ainda um dos representantes deste movimento.
A canalização estatal


O MAS, partido de Morales no poder, foi criado em 1999. Surgiu mais como confederação de alguns dos movimentos sociais do que como partido tradicional. Se nisto reside a sua força, tendo a sua ascensão eleitoral acompanhado a mobilização cada vez profunda destes movimentos, também levanta algumas fraquezas. Com parte dos seus dirigentes formados nas lutas sociais, alguns analistas sublinham a crónica falta de quadros políticos e a sua impreparação, o que abre também espaço para os oportunistas costumeiros que se abeiram destas situações de poder: o MAS é sobretudo fraco nas cidades, nos centros mais próximos do poder, o que o torna aí por vezes numa agência de emprego ou num mero partido de defesa do governo, como o reconhecem mesmo alguns dos que à esquerda fazem parte do grupo dos que são menos críticos da actuação do governo boliviano. As recentes acusações de tráfico de influência na colocação em postos de estado são disto exemplo, apesar das declarações dos principais responsáveis do partido de que serão implacáveis nestas situações.

Por outro lado, para além da impreparação de uns face à gigantesca máquina estatal e do oportunismo de outros, masistas de última ou de primeira apanha, a relação com os movimentos sociais é também problemática. O MAS não os esgota, mas por vezes comporta-se como se sim, utiliza-os como forma de resistir a uma oposição conservadora de momento desbaratada mas que tem na comunicação social um forte aliado, situação aliás semelhante à da Venezuela. A relação esquizofrénica com os movimentos sociais, a tentação do dirigismo ou de jogar com a sua força para conseguir compromissos à direita é um dos fantasmas que assombram o governo de Evo Morales. Um dos problemas é o da estreiteza do debate político. O governo não estabeleceu pontes de diálogo claras com os movimentos sociais, nem aliás conseguiu consolidar quaisquer espaços de discussão que permitam debater as divergências e definir estratégias comuns. Mesmo no interior do núcleo do MAS o projecto permanece ambíguo e o executivo parece agir num horizonte temporal muito curto, oscilando em permanência entre um discurso radical e uma prática conciliatória.

Aliás, o compromisso político deste governo foi o forjado pela luta dos movimentos sociais: a plataforma reivindicativa criada a partir dos movimentos sociais que expulsaram Lozada do poder, que foi baptizada como “Agenda de Outubro”, e que incluía como medidas emblemáticas a convocatória de uma Assembleia Constituinte e a nacionalização dos hidrocarbonetos.

Vencidas as eleições presidenciais, a chegada ao poder de Morales marcava, para além do plano simbólico de ter um indígena na presidência, um triunfo dos movimentos sociais que se viam a braços com a concretização de um programa até agora só reivindicativo.

Em parte as expectativas de mudança foram cumpridas, a base de apoio campesina viu serem construídas infra-estruturas no domínio da saúde e da educação e alguma repartição de terras do estado, um esboço de uma reforma agrária. Para além disso, Morales também aparentemente cumpriu o prometido quando apresentou as leis para a convocação da exigida Constituinte e um referendo sobre a autonomia departamental, isto para além do decreto que aprofundava o papel do estado no negócio do petróleo e do gás e reduzia as companhias petrolíferas estrangeiras ao papel de simples operadores, e subindo os lucros do Estado para 82%, proclamado simbolicamente no primeiro de Maio, e de ter, em Abril e Maio de 2006, recusado a assinatura de um tratado de livre comércio com os EUA, tendo decidido aderir à ALBA (Aliança Bolivariana das Américas junto com a Venezuela e com Cuba).

A confirmar o capital de simpatia de algumas destas medidas, nas eleições para a Constituinte, Morales conseguiu a maioria absoluta dos votos, o que parecia indiciar a decomposição rápida da direita política. Já o referendo sobre as autonomias departamentais, em que o não ganha com 54%, vai complicar o quadro, uma vez que insiste em mostrar uma realidade que não muda: a de um mapa político que parte o país a meio: no leste do país o sim foi maioritário.

A perder o gás?

Para os críticos do governo Morales, um dos pontos-chave é a sua atitude face ao gás e o petróleo. O projecto do MAS face aos hidrocarbonetos sempre foi mais cauteloso do que outros nos movimentos sociais. Ao passo que o MIP defendeu a nacionalização e expropriação das multinacionais, o MAS criou a fórmula “nacionalização sem expropriação”, que viria a concretizar. A argumentação do MAS é a de que as multinacionais são necessárias devido à falta de know-how do estado, uma vez que a empresa estatal, YPFB (Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos), praticamente não existe, de que as entradas rápidas de dinheiro proporcionadas por este acordo são fundamentais para fazer reverter verbas para o investimento no sectores sociais e ainda de que o governo se tem de defender de possíveis represálias jurídicas. Os seus críticos respondem que se vão perdendo assim oportunidades de reanimar a companhia estatal e que o discurso social mascara uma subserviência às multinacionais.

O decreto promulgado a um de Maio foi simbólico e ia essencialmente no sentido não expropriador, procurando reduzir as companhias petrolíferas a simples prestadoras de serviços. Os ganhos do estado passariam de 50% para 82% nos dois maiores campos de gás, que produzem 70% do gás boliviano.

Em Setembro de 2006, a demissão do ministro dos hidrocarbonetos, Andres Soliz Rada, demonstrou a falta de homogeneidade do governo neste tema fundamental para o desenvolvimento do país. Muitos viram aí um amolecimento das políticas neste sector: o ministro defendia uma refundação profunda da YPFB, tornando-a operativa, no governo havia muitas resistências a este ponto.

O anúncio da nacionalização provocou mal-estar e tensões com as petrolíferas foram inevitáveis e o governo brasileiro colocou-se imediatamente em bicos de pés para defender a sua dama. Mas o acordo com as multinacionais foi alcançado em Outubro de 2006, tendo-se assinado 44 novos contratos petrolíferos.

Por sua vez, os movimentos sociais também reagiram a estes acordos: em Camiri, uma cidade centro petrolífero, rebentou uma greve geral por tempo indeterminado, que inclui fechar durante horas as válvulas que abasteciam várias cidades, até que os dirigentes do Comité Cívico Camiri e uma comissão governamental assinaram um acordo para estabelecer aí uma agência da YPFB, decisão que implica, como era reivindicado à esquerda, transformar a empresa estatal numa empresa operativa. Mirko Orgaz, vice-presidente do comité de greve afirmou que com isto tinha caído a falsa política de nacionalização que era basicamente apenas uma modificação de contratos.

Morales anunciou ainda em Fevereiro que vai nacionalizar as fundições de estanho e antimónio da filial da companhia Suiça Glencore, medida que faz parte segundo ele da nacionalização no sector mineiro. Acusou a empresa de ter tomado conta do complexo de Vinto de forma fraudulento, dizendo ao mesmo que respeita as empresas que respeitam a lei.

Constituinte emperrada

Uma Assembleia Constituinte que refundasse o estado com base na mais ampla participação popular é uma reivindicação antiga dos movimentos sociais. Por exemplo, em 1990, a Marcha pelo Território e Dignidade, dos povos indígenas da região de Beni colocava-a como necessidade fundamental. Esta Constituinte assim sonhada era um grande encontro popular que juntava organizações de bairro, sindicatos, movimentos sociais para implementar uma democracia mais directa, deveria ser um fluxo directo de poder popular, a partir de baixo.

Só que não é esta a Constituinte realmente existente. É certo que é uma Assembleia na qual a esquerda dispõe de maioria absoluta mas é mais certo ainda que está muito longe de ser o que se sonhou ou de poder mudar aquilo que há necessidade de mudar. As limitações são, desde logo, pela sua composição, a começar pelos que poderiam ser eleitos. Esta constituinte ficou limitada aos partidos e a “grupos de cidadãos”, o que na linguagem política boliviana se aplica mais aos movimentos autonomistas da direita do que aos movimentos populares: a estes vários problemas de participação foram respondidos com a representação quase exclusiva do MAS na esquerda da Constituinte.
As limitações na composição da Assembleia devem-se também à lei eleitoral seguida que tinha uma regra de “protecção das minorias” que, ao invés de potenciar a pluralidade, serviu apenas para assegurar a representação de algumas pequenas organizações ad hoc de direita.

Somando-se a isto o facto da lei convocatória ser pouco clara no seu artigo sobre os 2/3 necessários à aprovação final da Constituição, o que deu azo a que a direita se juntasse para defender que qualquer alteração constitucional a qualquer artigo existente terá de ter maioria de 2/3, enquanto que a esquerda defende que esta maioria apenas conta para a votação final e não artigo a artigo. Para além do mais, estas discussões deram origem a uma campanha difamatória do governo acusado de anti-democrático por querer “mudar as regras do jogo” depois do resultado obtido (no oriente do país, conservador, uma greve de boicote à constituinte alcançou um sucesso relativo). Assim, os constituintes andaram enredados com o regulamento de funcionamento da Constituinte numa Assembleia que tem um prazo de existência seis meses a um ano. O acordo alcançado reside num sistema misto em que alguns dos temas centrais serão também votados assim. O MAS prepara-se para submeter ao referendo popular os temas em que não houver acordo, o que poderá gerar novas ondas de contestação.

Apenas agora se começam a discutir o calendário e horários de trabalho das diferentes comissões e até 6 de Agosto terá de ter o trabalho concluído. Para cumprir o prazo tão apertado, as reuniões terão de passar a ser a contra-relógio (o MAS propõe 10 horas de trabalho diário, seis dias por semana) e poderão ser necessárias concessões a uma direita que parece sobre-representada face ao seu actual peso eleitoral.

Alguns dos defensores tradicionais da Constituinte dizem que esta é uma caricatura da constituinte. E as análises dividem-se sobre o porquê de uma convocatória de uma tal constituinte: desde a costumeira traição a que o poder leva, às teorias do complot com a direita para desacreditar a ideia de constituinte, à boa vontade e ao compromisso de realpolitik que não permitiria mais do que isto e à necessidade de cumprir a promessa eleitoral realizada, aos erros por falta de consciência política várias explicações tem sido avançadas.

Cocaleros e o espantalho do narco-tráfico
Morales, o narco-traficante no poder. Assim, o pintaram as vozes mais conservadoras. Apesar da sua campanha se basear na ideia “folha da coca sim, cocaína e narco-tráfico não”, Morales tem a necessidade dupla de apagar esta imagem e de permanecer fiel à sua primeira base de apoio: os cultivadores da folha da coca.

Os EUA, exigem uma postura de força relativamente à plantação tradicional da folha da coca e, em Setembro, numa intervenção militar no Parque Nacional Carrasco, foram mortos dois cocaleros. A propósito do incidente, o ministro da defesa, San Miguel, afirmou que o início da erradicação da coca neste parque abriu um caminho para melhorar as relações com os EUA. Por sua vez, o ministro Muñoz justificou que a operação tinha sido correcta, que estes eram narco-traficantes, que no parque nacional a produção de coca era ilegal. As forças policiais alegaram que tinham sido emboscadas e que tinham agido em legítima defesa. Os líderes cocaleros contam uma versão diferente dos acontecimentos, alegando que segundo a lei o cultivo da coca é legal naquele local e que a intervenção foi deliberadamente abusiva. O irónico da situação é que Morales continua a ser o líder dos cocaleros da região de Chapare onde está incluído este parque...

Huanuni, a guerra corporativista

Depois do encerramento das minas do estado em 1985, o sector viu-se a braços com o desemprego e recorreu ao auto-emprego, explorando minas abandonadas, através do cooperativismo. O que começou por ser uma resposta comunitária ao problema da subsistência, transformou-se num negócio rentável com o aumento do preço dos minerais, dando origem a uma nova aristocracia que já era bem mais corporativista do cooperativista e que tratou de empregar por sua conta outros mineiros e de tentar tomar conta à força das minas estatais restantes.

O movimento mineiro cooperativista é aliado do MAS e Morales, uma vez no governo, acantonou-se numa postura de defesa deste sector, contraditória com o seu projecto de esquerda nacionalista e com a defesa dos trabalhadores do estado.

Um acontecimento em particular colocou em causa este apoio governamental. A 5 de Outubro, mineiros cooperativistas atacaram as minas de Huanuni, um dos maiores depósitos de estanho da América Latina, e os empregados da COMIBOL, a empresa estatal, que aí trabalhavam (a maior parte dos quais pertence ao FSTMB, a Federação Sindical dos Mineiros da Bolívia). Estes reagiram e, em dois dias, entre 11 a 21 pessoas morreram e 60 a 80 ficaram feridas. Os cooperativistas alegavam que a posse da mina era sua, depois de um processo de privatização falhado e de uma re-nacionalização pouco clara.

Uma das acusações dirigidas ao governo é que a sua reacção ao ataque foi tardia e fraca, permitindo que o saldo dos acontecimentos fosse trágico. Para além disto, foram particularmente chocantes as declarações do ministro das minas, o ex-dirigente cooperativista Walter Villarroel, antes de ser demitido, a alinhar com os cooperativistas, responsabilizando os trabalhadores mineiros pelos distúrbios. Villarroel já antes era acusado de ser um entrave corporativista à reactivação do sector público mineiro e era uma das provas vivas das contradições do governo de Morales. Se bem que depois desta crise tenha sido destituído o ministro e que Morales pareça ter rompido a aliança com os cooperativistas, anunciando a necessidade de nacionalização do sector mineiro, mas nacionalizando apenas as concessões que não tenham recebido investimentos, os sinais políticos continuam a ser dúbios e as dúvidas sobre a capacidade do governo cortar com uma das bases de apoio permanecem.

Para além do mais, outros sinais preocupantes se cruzam com estes: na sequência destes acontecimentos, uma manifestação da COB (exige nacionalização das minas e controlo operário, para fazer face ao avanço dos cooperativistas e das multinacionais que já controlam 2/3 da produção mineira) foi dispersada com gás lacrimogéneo, reavivando os fantasmas da repressão.

Um capitalismo indígena andino?

E que modelo económico tem a esquerda governamental Boliviana? Os conceitos políticos de Evo Morales conseguem ser quase tão confusos quanto os de Chavez. Neste caso, é o Vice-Presidente Garcia Linera que é o ideólogo do sistema, mas sendo que a coesão ideológica não parece ser o forte do MAS nem mesmo a sua voz autorizada traduz o pensamento político do governo nem a sua visão estratégica de futuro. O que é certo é que ele defende um modelo “capitalista indígena andino”, ou seja, na impossibilidade de uma revolução social a curto prazo, salienta-se a preocupação em fazer reverter dividendos do estado para fins sociais junto com a promoção de formas organizativas indígenas. Não se exclui o “socialismo”, apenas se coloca a sua impossibilidade nas circunstâncias e, por vezes, apresenta-se este modelo como forma de transição, outras parece ser um modelo mais definitivo...

No imediato, o “plano nacional para o desenvolvimento”, documento do governo em que se traça o modelo económico para os próximos 4 anos, é contestado por ser o mesmo modelo económico de sempre, baseado na exportação de bens sem mais valia, os recursos naturais em bruto, e, para assegurar a competitividade, a política económica é orientada para reduzir a procura interna (o consumo interno), defendendo-se a manutenção da independência do banco central que parece assim ter luz verde para continuar algumas políticas monetárias restritivas.
Os críticos do modelo económico de Morales tomam como concretização deste ideário o caso das minas de Mutún, um dos maiores depósitos de ferro do mundo. Depois da procura chinesa de ferro ter reanimado o projecto, a Jindal Steel & Power, uma multinacional indiana, ganhou do governo a sua licença de exploração. Mais uma vez, o governo defende a sua posição com os enormes lucros que irá ter devido aos impostos e com a promessa de os fazer reverter para áreas sociais mas 95% do ferro extraído vai sair do país em bruto, não sendo transformado, o que é uma insistência num modelo que não promove um desenvolvimento mais alargado. Tal como no caso do petróleo e do gás, parte da esquerda não governamental exigia que fosse a empresa estatal a ficar com a concessão.

Para onde cairá?

O governo de Morales procurará sobreviver, é certo. Até onde, em que medida e com quem está disposto a negociar a sua sobrevivência é uma incógnita. O governo sente a direita a ameaçar a cada momento. Mas começa a sentir cada vez mais a pressão da esquerda não governamental e das suas manifestações que têm aumentado de radicalidade. Esta relação de forças depende também do enquadramento internacional e do futuro dos seus aliados venezuelanos. Independentemente dos inúteis exercícios de avaliação da bondade/maldade, pureza/impureza, do núcleo duro do masismo, o decisivo será o que a realidade social impuser.

*Carlos Carujo é professor de Filosofia e editor desta revista.

 

CAIXA1 

Mapa político Boliviano

 

Esquerdas e movimentos sociais
À esquerda, para além do MAS, temos o MIP (Movimento Indígena Pachakuti) de Felipe Quispe, muito mais abertamente revolucionário. A ele e à COB (Confederação de Operários Bolivianos), de Jaime Solares, se deve o triunfo da ideia de nacionalização dos hidrocarbonetos da qual o MAS pareceu durante tanto tempo desconfiar e que finalmente abraçou à sua moda. Quispe, figura carismática da luta revolucionária boliviana, foi companheiro de Linera, o sociólogo que é agora vice‑Presidente, em grande parte do seu percurso. Partilharam o passado guerrilheiro num movimento de guerrilha inspirado no indígena Túpaj Katari, o Exército Guerrilheiro Túpaj Katari (EGTK), experiência que acabou com a prisão. Os caminhos dos dois separaram‑se de modo que Quispe é hoje uma das principais vozes críticas do governo à esquerda. O MIP sofreu um rude golpe com as últimas eleições: a votação de cerca de 2% faz com que o partido perca o seu estatuto legal e impede que Quispe ocupe o lugar de deputado. Este índio, derrotado nas eleições, afirmou que se vai afastar da política e trabalhar a terra...

No campo dos movimentos sociais não alinhados com o governo contamos, por exemplo, com a Federación de Juntas Vecinales de El Alto (FEJUVE‑El Alto), associação de moradores que foi um dos focos das guerras da água e do gás e que se continua a distinguir pela sua combatividade e participação popular. Tal como a Confederação Sindical Unitária dos Trabalhadores Camponeses da Bolívia (CSUTCB), o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra da Bolívia (MST‑B), as Coordenadoras da água. 

 

Conservadores entre o crepúsculo e a força da meia‑lua
Do lado dos conservadores, temos 3 partidos estruturantes: o MNR (Movimento Nacionalista Revolucionário) de Gonzalo Sanchez de Lozada, o ex‑presidente expulso do poder pela força dos movimentos populares, o MIR (Movimento da Esquerda Revolucionária) de Jaime Paz Zamora e que apesar do nome ocupa lugar entre as forças de direita, o ADN (Acção Democrática Nacionalista), de Hugo Banzer e de Jorge Quiroga. A estrutura de poder tradicional girava à volta destes 3 partidos e das suas coligações que fundamentalmente mantinham o mesmo tipo de política liberalizadoras. A partir dos partidos tradicionais, e na sequência do seu enfraquecimento, surgiram outras que se apresentaram nas últimas eleições como sendo forças de mudança política: Samuel Doria Medina (UN –Unidade Nacional) e Jorge Quiroga (Podemos). A UN nasceu de uma cisão do MIR. Medina chegou a ser membro do governo indigitado por este partido e é um empresário da indústria cimenteira. O PODEMOS surgiu a partir da ADN, como uma aliança política, juntando partidos e “grupos de cidadãos”.

Aliás, parte significativa da mobilização actual da direita, para além dos bastiões dos media, é traduzida nestes grupos de cidadãos de direita, muitos autonomistas. Se a direita em termos nacionais foi, de momento, derrotada fortemente, continua a manter um poder regional estruturado na divisão que afecta o país. O MAS conseguiu maiorias claras em Chuquisaca, La Paz, Cochabamba, Oruro, Potosí, ou seja no centro, oeste e sudoeste do país, tendo perdido nas zonas mais prósperas do país (Tarija e Santa Cruz) tal como nos departamentos da amazónia de Beni e Pando (esta zona é conhecida como a meia lua, pela sua configuração). Foi aí que as reivindicações pela autonomia venceram no referendo realizado por Morales, apesar do resultado nacional. É daí que surgem grande parte das mobilizações de direita que pretendem pôr em causa o governo de Morales.

  

 
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