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Giuliana Sgrena: "No Iraque só se pode fazer informação a partir dos comunicados dos ocupantes"
A jornalista italiana Giuliana Sgrena participou no I Fórum de Jornalistas do Mediterrâneo, a 22 e 23 de Fevereiro. Nos próximos meses vão ocorrer desenvolvimentos nos processos relativos ao sequestro e à sua trágica libertação. O jornal Diagonal conversou com a jornalista sobre a situação do Iraque e as suas experiências no país ocupado.

Pouco tempo depois de ter sido libertada e posteriormente alvejada a tiro, afirmou que Falluja tinha sido arrasada para preparar as eleições. Como vê a situação no Iraque desde esse momento?
As eleições não estavam enquadradas num processo de democratização, por isso não foram uma expressão livre do povo. Foi uma oportunidade para algumas comunidades, como os xiitas, para tomar o poder, contra os sunitas e com a participação dos curdos. Fez-se uma divisão do poder entre xiitas e curdos e assim não se consegue garantir uma representação de todos. Aprofundou a divisão entre comunidades. Os xiitas participaram nas eleições com uma lista confessional, onde estão todos os partidos religiosos xiitas. Esta participação é confessional e isso não é uma expressão de liberdade, mas sim a maneira dos líderes religiosos xiitas chegarem ao poder.  Estes partidos religiosos têm o controlo da situação e as suas milícias armadas ocupam o terreno. As próprias milícias religiosas fazem parte da polícia iraquiana e sentem-se mais vinculadas aos seus líderes religiosos do que à autoridade iraquiana. Não se consegue garantir um controlo verdadeiro do Estado. No que respeita aos sunitas, o terreno está melhor controlado pelas forças da resistência. Na resistência também há fundamentalismos religiosos, há forças diferentes e muitas vezes em contradição. Os curdos têm uma dinâmica de autonomia muito forte, mas também têm problemas como o da cidade de Kirkuk, que produz petróleo.

Como foi a cobertura informativa da guerra?
Durante a guerra houve uma informação mais plural porque havia jornalistas que estavam em Bagdade, e jornalistas que estavam integrados nas tropas. Os iraquianos controlavam muito a informação, mas a partir do momento em que se foram embora, esse controlo enfraqueceu e houve uma informação com diferentes pontos de vista. Paralelamente às ameaças contra os jornalistas estrangeiros por parte de iraquianos, começaram as ameaças dos militares e dos mercenários da guerra privada. Isto limitou muitíssimo a possibilidade de fazer informação independente. Os jornalistas sofriam uma ameaça que muitas vezes não era explícita. O que aconteceu no Hotel Palestina [bombardeamento norte-americano ao hotel onde estavam alojados muitos jornalistas] foi um aviso claro a todos os jornalistas no Iraque. Também mataram um jornalista da Al-Jazeera e um palestiniano em frente à prisão de Abu Ghraib.

É possível hoje fazer informação independente no Iraque?
Quando aqueles que combatiam os ocupantes começaram a matar ou raptar jornalistas ocidentais e árabes, fazer informação tornou-se muito mais perigoso. Antes de ir ao Iraque na última vez, dizia que tinha de assumir o risco de fazer informação independente no Iraque. Agora já não posso dizer isso. Apesar de todas as precauções que tomei, fui sequestrada. Penso que neste momento não é possível fazer essa informaão independente. Para informar naquele país, tem de ser integrado nas tropas, ficar na “zona verde” ou fechado num hotel a enviar colaboradores iraquianos, também eles na mira dos terroristas, da resistência iraquiana e dos ocupantes. Só se pode fazer informação a partir dos comunicados dos ocupantes que não se podem confirmar. Temos de assumir o problema da informação no Iraque: porque se não se informa, a guerra afasta-se em benefício do Ocidente.

O rapto de que foi vítima contém essa contradição...
Para mim foi uma grande frustração quando fui sequestrada. Dizia aos meus raptores que tentava informar a opinião pública italiana sobre aquilo que sofrem os iraquianos. Sentia-me refém de mim mesma.

A que conclusões chegou a investigação sobre o tiroteio?
Os magistrados que conduziram a investigação concluíram que, no que respeita ao ataque ao carro onde seguíamos, nem sequer avisaram, dispararam logo. Outro facto importante que ficou registado é que dispararam 58 balas contra o carro em direcção aos passageiros e não às rodas. Se disparas à altura dos passageiros, concluíram os magistrados, disparas a matar. Pediram ao juíz uma acusação ao soldado Mario Lozano por homicídio voluntário político de Nicola Calipari [o agente dos serviços secretos italianos que comandou a operação de resgate de Giuliana e seguia ao seu lado no carro, protegendo-a das balas] e tentativa de homicídio voluntário contra mim e o outro agente. O juíz aceitou que o processo avance, com a primeira sessão no dia 17 de Abril.

Os processos contra agentes norte-americanos fora do país já mostraram a impunidade com que actuam. O que espera deste processo?
Espero que através dele se possam juntar outros testemunhos que acrescentem elementos sobre o que realmente aconteceu. Além disso, Lozano é responsável mas não é o mais importante. Ele disparou, mas alguém lhe deu essa ordem. Também é um processo simbólico. É uma maneira de reduzir a impunidade que têm os soldados norte-americanos fora do seu país.

A intenção clara deste “fogo amigo” dos EUA parecia apontar a si enquanto jornalista independente. Acha que se tratava apenas de atacar a informação?
Não sei se foi só a informação. O governo italiano, há que reconhecê-lo, negociou sempre a libertação, ao contrário do que queriam os americanos. Trabalhou para me libertar através dos agentes que tinham bons contactos dentro e fora do Iraque. Quando Calipari decidiu ir ele próprio era porque achava que era um assunto muito perigoso. Até chegou a avisar os seus colegas: “Cuidado com os soldados dos Estados Unidos porque têm gatilho fácil”.

Quem acha que a sequestrou?
Pelo que pude saber no meu contacto com os sequestradores, a impressão que fiquei foi que eles faziam parte da resistência, não eram criminosos comuns Estavam muito politizados, gente instruída, e também não eram jihadistas porque me disseram que não tinham nada a ver com al-Zarqawi. Suspeito que seria outro grupo da resistência mais baasista ou saddamista. Eram muçulmanos, mas não fundamentalistas.
 
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