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Capitalismo Espiritual, por Nuno Milagre
Juntamente com a televisão e a internet, o cinema, sobretudo os blockbusters de Hollywood, são os mais poderosos media do mundo; o seu alcance é verdadeiramente global, apesar de algumas restrições políticas e técnicas em acedê‑los em algumas parcelas do globo.

Um filme, quando visto em sala, é um produto autoritário, no sentido em que é visto tal qual foi finalizado segundo as vontades de realizador e produtores: a ordem das imagens, a duração, o início, meio e fim não são reorganizáveis; ou o vemos tal como é ou não o vemos, mas não temos qualquer hipótese de alteração da ordem das partes. Já a tv e a internet estão permanentemente sujeitas ao zapping, à selecção e escolha de múltiplos caminhos e um livro pode ser começado a ler pelo final. Esta autoridade do conteúdo perante o espectador torna inviolável a mensagem que é veiculada, o que faz do cinema um eficiente veículo para transmitir opiniões, moral, posições políticas, religião, comportamento de aceitação social e também para vender produtos e lifestyle.

A influência do cinema americano no mundo não vem dos anos 80 ou 90, começou com o início da exportação de filmes americanos para o estrangeiro. Ainda no fim da primeira metade do século XX, a Motion Pictures Association of America garantia que por cada polegada de película de filme exibida no estrangeiro entraria um dólar no país. A imagem utilizada espelha bem os objectivos de quem intuía estar no início de uma colonização cultural global que hoje se apresenta com uma grande vitalidade. Se há instrumentos que têm contribuído para a hegemonia cultural do Império, Hollywood é seguramente um deles. Pela sua aparente inocência e desinteresse, o entertainment, muitas vezes, chega a pontos do globo que a diplomacia e a política nem sequer conhecem.


Filmes de Fé

Os filmes de matriz cristã há muito que entraram no mercado, mas nos últimos anos estratégias bem definidas de alguns estúdios de Hollywood trouxeram este género para dentro do mainstream e já não se produz para um nicho específico do mercado, mas para um público global. Barbara Nicolosi que dirige um programa de guionismo de inspiração cristã em Los Angeles, defende que os crentes devem aprender a fazer filmes e entrar na indústria: “Escrever um filme que não seja entendido fora da comunidade cristã não é o caminho pois afasta os cristãos da cultura contemporânea.” Assim, filmes de grande orçamento que recorrem a nomes conceituados e às mais avançadas técnicas e tecnologias de produção e marketing da “indústria pagã” chegam às telas. Em tudo são iguais aos outros: o mesmo deslumbre de efeitos especiais e competição nas receitas de bilheteira, mas veiculando uma moral religiosa ainda que sem recorrer necessariamente a um discurso religioso tradicional.

Sobre o filme “Crónicas de Narnia” Glenn Blossom, pastor de uma Igreja Evangélica de Nova Iorque afirmou: “Esta é uma grande oportunidade para os cristãos acederem à sua história de uma forma diferente e através de um objecto artístico”. Por trás deste filme está a Walden Media do americano Philip Anschutz, 65 anos, cristão, bilionário; um dos 35 mais ricos dos EUA segundo a revista Forbes. Na década de 70 fez dinheiro com o petróleo, na década de 80 entrou no ramo dos caminhos de ferro, na década de 90 expandiu-se para a área das telecomunicações e de há uns anos para cá entrou nos media e no entertainment. Anschutz é uma força emergente em Hollywood e assume uma marcada intenção de evangelizar, de produzir conteúdos de inspiração cristã, que veiculem os valores da família. Desde 1979 que ele financia o Partido Republicano, nos últimos cinco anos fez donativos no valor de mais de 300.000 dólares. Fundou e financia organizações anti-gay e anti-aborto, o entertainment é a sua nova ferramenta ideológica. “Crónicas de Narnia” que estreou em Dezembro de 2005 custou 180 milhões de dólares e arrecadou 744 milhões.

Não é uma questão de utilizar a religião para fazer dinheiro ou usar o dinheiro para conquistar cidadãos para uma causa; é um combinado dos dois: a fé aplicada a conteúdos vendáveis produz grandes margens de lucro, o dinheiro investido para conseguir um entertainment atractivo também converte e fideliza pessoas a uma certa moral. É o capitalismo espiritual do entertainment conservador. “Trata-se de uma forma moderna do fundamentalismo político, ou seja, a proclamação de uma moral religiosa (cristã) conservadora, que usa abordagens e opções estratégicas de linguagem concebidas para uma cultura de mass media para dar forma e implementar medidas políticas” escreveu David Domke no site mediatransparency.org fazendo uma ligação clara entre alguns estúdios e os neoconservadores.

Outro braço desta corrente é o grupo Fox que lançou recentemente a subsidiária FoxFaith, exclusivamente virada para a produção e distribuição de filmes de fé. A comunidade cristã representa uma importante fatia do mercado consumidor do entertainment, o que já garante uma espécie de receita mínima garantida. Na senda de ”A Paixão de Cristo” novos épicos bíblicos serão estreados nos próximos anos.

 * Nuno Milagre é assistente de realização e redactor desta revista

 

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Até ao fim do mundo

A 500 km de Maputo fica Mocoduene, uma aldeia rural de Moçambique, uma entre iguais, onde não há saneamento básico nem electricidade, à excepção do gerador da casa e igreja de um padre italiano.

É Outubro de 2003, a guerra no Iraque desenrola-se lá longe no Médio Oriente. No parapeito da varanda de uma casa vazia que é utilizada pelo poder local e associações, uma tv e um vídeo alimentados por uma puxada de electricidade do gerador do padre italiano passam o filme “Rambo 3”, de 1988. Em frente à casa, algumas dezenas de espectadores olham o aparelho, miúdos e jovens, a maioria está de pé, muito juntos porque o ecrã é pequeno. Crianças nesta e noutras aldeias remotas de África passam um serão, no século XXI, vendo Rambo no Afeganistão para combater os soviéticos. Não percebem os diálogos porque o filme não tem legendas, mas não faz mal, vibram com a imagem em movimento. Todos alheios ao ambiente da guerra-fria em 88, quase todos alheios à guerra no Iraque, poucos sabem quem é George W. Bush ou Saddam Hussein, mas conhecem Rambo. A cassete é pirata, mas não interessa se a imagem salta e se o som se transforma num chiar estridente por momentos; a magia dos golpes de Rambo e as explosões estão lá e superam os defeitos da exibição.

No fim da sessão e na manhã seguinte miúdos saltam a imitar os golpes de Rambo, copiando os movimentos das cenas de acção. Rambo e outros heróis de Hollywood conseguem chegar onde não chega o peixe fresco nem a luz eléctrica, conseguem chegar ao fim do mundo sem gerar receitas para os produtores, mas fazendo passar os valores americanos.

 
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