combate.info | associação política socialista revolucionária - CHÁVEZ: POR UMA V INTERNACIONAL
Clica aqui para abrir o ficheiro pdf do livroEncomenda aqui o livro por 10 euros (+ portes)Encomenda aqui os cadernos por 10 euros cada (+ portes)
Ler em pdf a edição portuguesa de "Trotskismos", de Daniel Bensaïd

  Trotskismos, de Daniel Bensaïd
Ler livro em pdf
| Encomendar livro (10€+portes)


CHÁVEZ: POR UMA V INTERNACIONAL
Chávez quer criar uma nova Internacional, mas o caminho passa pelo debate entre as forças anticapitalistas.Respondendo ao apelo de Hugo Chávez à criação de uma V Internacional, François Sabado, da direcção da IV Internacional, saúda a proposta e aponta alguns caminhos para um debate que possa reunir a esquerda anticapitalista e ajudá-la a criar um programa e uma organização que não repita os erros do passado.

 

Durante um encontro internacional de partidos de esquerda em Caracas, de 19 a 21 Novembro de 2009, Hugo Chávez lançou um apelo por uma V Internacional socialista que, segundo ele, deveria juntar os partidos da esquerda e os movimentos sociais. Para o presidente do Partido Socialista Unido da Venezuela, a V Internacional deve ser "um instrumento pela unificação e a articulação da luta dos povos para salvar este planeta". Numa situação política mundial marcada por uma crise global do sistema capitalista, é um facto suficientemente importante para ser sublinhado.

De facto, não abundam os responsáveis ou partidos que colocam a questão da Internacional, e esse é o primeiro mérito do apelo de Chávez.

Para mais, este apelo foi acompanhado de uma declaração que denuncia o carácter sistémico da crise capitalista, para além das suas dimensões financeiras e bancárias, e que reafirma a perspectiva do socialismo no século XXI. Apela também á mobilização urgente contra a nova ofensiva imperialista, na América latina, por parte da administração norte-americana e da direita latino-americana.

Na base deste apelo, pode ser constituída uma grande frente anti-imperialista mundial para marcar a solidariedade com as lutas dos povos pelos seus direitos sociais e políticos, para se opor às novas bases norte-americanas na Colômbia, para apoiar em especial a mobilização do povo das Honduras contra o novo regime ditatorial.

No braço de ferro que opõe as potências imperialistas às lutas dos povos, esta frente mundial seria um instrumento importante para combater o poder das classes dominantes, não apenas na América latina mas no mundo inteiro.

Estamos prontos, como sempre estivemos, na solidariedade com a revolução cubana, a revolução bolivariana, com as experiências da Bolívia e Equador, a empenharmo-nos neste combate comum contra os ataques imperialistas e a tomar por inteiro o nosso lugar nesta frente anti-imperialista mundial.

É também neste quadro que se coloca o processo de construção de uma nova Internacional. Chávez apela à constituição duma V Internacional Socialista. Isso põe na ordem no dia a discussão sobre uma nova Internacional. Chávez situa a construção dessa V Internacional na continuidade da IV. Já o dissemos muitas vezes: pouco importam os rótulos se existe convergência sobre o conteúdo. Mas a constituição duma nova Internacional implica todo um processo à volta de um programa, uma política, uma organização, que deve ser feita na base de um amplo debate com todos os protagonistas.

Existe de facto um novo período histórico, onde as clivagens entre as diversas correntes revolucionárias podem ser ultrapassadas na base de uma "nova compreensão comum dos acontecimentos e das tarefas". Desta ponto de vista, não se trata de discutir os balanços históricos de uns e de outros, mas é decisivo tirar ensinamentos conjuntos do estalinismo e da social-democracia para que as tragédias e erros do passado não se voltem a repetir.

Cada partido, cada organização, cada corrente, cada militante deve contribuir a este debate. No que diz respeito à IV Internacional, ela já formulou, em várias ocasiões, as suas propostas:

- um programa anti-imperialista e anticapitalista de reivindicações de urgência, que parta das reivindicações e necessidades sociais das classes populares, proponha uma nova repartição das riquezas, a apropriação pública e social de sectores-chave da economia, com vista à transformação revolucionária da sociedade.

- A unidade de acção de todas as organizações, correntes, militantes contra os ataques dos governos e das classes capitalistas.

- A independência dos movimentos sociais, das associações e das organizações sindicais face aos partidos e aos Estados.

- A solidariedade com todas as lutas dos povos contra todas as potências imperialistas.

- A luta contra as opressões e a defesa dos direitos das mulheres, dos homossexuais, dos jovens e dos imigrantes.

- A luta por governos dos trabalhadores e das classes populares que satisfaçam as principais reivindicações sociais e ecológicas, que se apoiem na mobilização da população e no seu controlo sobre os principais sectores da economia. Esta perspectiva implica não participar em governos de gestão do Estado e da economia capitalista com os partidos do centro-esquerda ou da social-democracia.

- O carácter central da auto-emancipação e da auto-organização dos povos no processo de derrube do capitalismo.

- Um projecto ecosocialista que combina a satisfação das necessidades sociais bem como o respeito pelo equilíbrio do nosso ecossistema. Neste sentido, temos muito a aprender com as populações indígenas da América do Sul e da sua relação com a terra.

- A democracia socialista como projecto de sociedade: autogestão da economia, democracia e pluralismo dos partidos e movimentos sociais.

Aqui estão algumas pistas de debate para avançar no caminho da união de todos os anticapitalistas à escala internacional. São estas as primeiras ideias que defenderemos no processo de constituição de uma nova Internacional.

Finalmente, o apelo de Chávez a uma V Internacional também fornece um ponto de apoio ao colocar a questão de uma nova Internacional, independentemente da II, de que são membros organizações como os partidos social-democratas, o PRI mexicano ou associados, como o PT brasileiro. Mas é preciso clarificar uma questão na construção duma nova Internacional, que é a diferença entre as políticas de Estado e a construção de um projecto político. Uma coisa é assinar acordos económicos e comerciais com Estados dirigidos por governos anti-imperialistas, ou com outros Estados, inclusive  com regimes reaccionários, ou opor-se aos ataques do imperialismo contra certos países; outra coisa é o apoio político manifestado a regimes como os do Partido comunista chinês ou da Republica Islâmica do Irão... O projecto de uma V Internacional não pode ficar nem de perto nem de longe associado a esses regimes.

Mais uma vez, este apelo cria as condições para uma nova discussão internacional, indissociável da solidariedade com a revolução bolivariana. E neste espírito que a IV Internacional, as suas organizações e os seus militantes responderão "presentes!".



François Sabado, membro do Bureau Executivo da IV Internacional

Tradução combate.info

 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >