| XVI CONGRESSO: A RENOVAÇÃO DA IV INTERNACIONAL |
As teses sobre alterações climáticas, os apelos de Chávez e de Chomsky para uma nova Internacional e a construção dos novos partidos anticapitalistas foram alguns dos temas em debate num Congresso que assistiu à renovação geracional na direcção da organização. Artigo de Salvattore Cannavó
Para contar o que se passou no 16º Congresso da Quarta Internacional, podíamos começar por falar na reconstituição da secção Russa da Internacional, uma espécie de regresso às origens: a Quarta Internacional foi fundada pela iniciativa de Leon Trotsky em 1938, no despertar da luta - e da derrota - da Oposição de Esquerda ao Estalinismo, destruída na Rússia durante os anos 20 e 30 do séc. XX. Podíamos continuar por notar a presença de muitas organizações Latino Americanas, começando pela Marea Socialista, que faz parte do Partido Socialista Unido do Chavez na Venezuela, e que propôs o reforço da unidade política e de acção por parte das correntes internacionais para responder colectivamente à proposta de uma Quinta Internacional pelo presidente venezuelano. Podíamos falar também da importância do nascimento do Novo Partido Anticapitalista em França, notando as suas contradições e dores de crescimento, constituindo a maior novidade na política Europeia e a dinâmica, noutras latitudes políticas, da esquerda alemã. Contudo, para reflectir sobre o sucesso que representou o 16º Congresso da Quarta Internacional - o qual terminou a 28 de Fevereiro de 2010 em Ostend, Bélgica, no Mar do Norte - preferimos antes citar três elementos:
Renovação Para a Quarta Internacional tudo isto foi uma renovação, um sintoma da ultrapassagem das dificuldades dos anos 90 e da primeira década do século XXI. Após uma série de abandonos e divisões e uma perda de perspectiva, a discussão acerca da possibilidade, ou ao menos, a vontade de considerar uma "nova internacional" - o fruto de um possível processo político, iniciado pelas escolhas feitas em França, pelo aparecimento de organizações como a Paquistanesa ou pelo debate tido na América Latina - deu origem a um novo ímpeto e a um novo debate internacional. O processo político que deve ser observado de forma cuidadosa é a construção de "novos partidos anticapitalistas", abrangentes e com influência de massas e que incluam "a resposta à crise do movimento dos trabalhadores e a necessidade da sua reconstrução". Uma perspectiva que tem um carácter orgânico e internacional sem no entanto resultar numa "linha" que deve ser seguida de forma obrigatória em todo o lado. Uma perspectiva, que devemos reforçar, coincide com o desejo e o projecto de reforçar esta corrente política que existe há mais de 70 anos, mas que ainda mantém uma vitalidade considerável, e a prova disso é evidente quando é capaz de dedicar uma sessão de debate - e aprovar uma nova resolução - às alterações climáticas, consideradas uma das maiores novidades do século, e uma batalha decisiva no conflito entre o capital e o trabalho. Mais, esta atenção a novos temas e novos sujeitos de conflito foi já mostrada no anterior Congresso, que aprovou uma resolução sobre o movimento anti-globalização e sobre a questão LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgéneros). Não existem muitas organizações Marxistas revolucionárias que consigam integrar, ou mesmo aspirar a integrar, no seu programa, questões que foram tão controversas na história do movimento dos trabalhadores. De facto, não há outra. Obviamente temos de manter um sentido de proporção: estamos a falar em várias partes do mundo de pequenas organizações, por vezes pequenos grupos, mesmo que sejam geralmente colectivos de activistas inseridos na sua realidade nacional, social e política. Mas o facto de pertencer a uma rede internacional ajuda à preservação de uma certa vitalidade e a possibilidade de manter um fio condutor e um espaço de discussão comum. Além de poder responder agora a novos desafios, como a possibilidade de debate acerca da Quinta Internacional, proposto pelo Governo da Venezuela. A natureza propagandística desta proposta e a complexidade de um convite feito por um governo não escapa a ninguém. Ao mesmo tempo, e isto foi dito mais que uma vez, a hipótese dá uma nova credibilidade e visibilidade à concepção de Internacional, o facto de esta dimensão ser crucial para confrontar a globalização capitalista e a sua crise. E não é coincidência que, além da proposta de Chavez, há outra, vinda do site Znet, e que tem entre os seus primeiros signatários pessoas como Noam Chomsky, Michael Albert, Vandana Shiva, Michael Löwy, John Pilger e muitos outros. O Congresso decidiu participar neste debate mantendo intacta a sua concepção de Internacional, isto é, um corpo baseado num programa, numa perspectiva comum (a transcendência do capitalismo), democracia interna, eficiência social e absoluta independência dos governos. Ao mesmo tempo, o apelo da Marea Socialista para um encontro internacional em Caracas, a acontecer possivelmente em Junho, foi bem recebido. Outra questão que esteve no centro da discussão foi a questão dos movimentos sociais, com o compromisso da Cimeira de Cochabamba sobre o aquecimento global, convocada pelo Presidente Bolíviano Evo Morales e os vários Fóruns Sociais - o das Américas em Asunción, o Fórum Social Europeu em Istambul e o Fórum Social Mundial, em 2011, em Dakar, a cimeira Euro-Latino Americana em Madrid, em Maio próximo e a cimeira contra a NATO em Novembro de 2010, em Lisboa. Foi dado um novo ímpeto ao Instituto de Pesquisa e Educação em Amesterdão, o qual vai ter o apoio de dois novos centros "regionais", Manila e Islamabad, com uma óbvia importância simbólica. Ao nível europeu, além do ênfase dado às cimeiras já mencionadas de Madrid e Lisboa, é importante pôr em marcha o processo de convergência da esquerda anticapitalista, para além de fórmulas e formas, a necessidade de avançar com reflexão comum e, acima de tudo, iniciar campanhas políticas comuns. Para ligar com isto o Congresso votou a favor da organização de conferências temáticas para discutir vários assuntos com a perspectiva de levar a cabo iniciativas comuns. A primeira reunião será dedicada à crise económica e particularmente como ser oposição efectiva em três aspectos: redundâncias e ataques às pensões e serviços públicos.
Salvattore Cannavó é membro do Secretariado da Quarta Internacional e faz parte da direcção da Sinistra Critica em Itália. Tradução de Marco Marques.
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