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XVI CONGRESSO: A RENOVAÇÃO DA IV INTERNACIONAL
O XVI Congresso da Quarta Internacional decorreu no início de MarçoAs teses sobre alterações climáticas, os apelos de Chávez e de Chomsky para uma nova Internacional e a construção dos novos partidos anticapitalistas foram alguns dos temas em debate num Congresso que assistiu à renovação geracional na direcção da organização. Artigo de Salvattore Cannavó


Para contar o que se passou no 16º Congresso da Quarta Internacional, podíamos começar por falar na reconstituição da secção Russa da Internacional, uma espécie de regresso às origens: a Quarta Internacional foi fundada pela iniciativa de Leon Trotsky em 1938, no despertar da luta - e da derrota - da Oposição de Esquerda ao Estalinismo, destruída na Rússia durante os anos 20 e 30 do séc. XX.

Podíamos continuar por notar a presença de muitas organizações Latino Americanas, começando pela Marea Socialista, que faz parte do Partido Socialista Unido do Chavez na Venezuela, e que propôs o reforço da unidade política e de acção por parte das correntes internacionais para responder colectivamente à proposta de uma Quinta Internacional pelo presidente venezuelano. Podíamos falar também da importância do nascimento do Novo Partido Anticapitalista em França, notando as suas contradições e dores de crescimento, constituindo a maior novidade na política Europeia e a dinâmica, noutras latitudes políticas, da esquerda alemã.

Contudo, para reflectir sobre o sucesso que representou o 16º Congresso da Quarta Internacional - o qual terminou a 28 de Fevereiro de 2010 em Ostend, Bélgica, no Mar do Norte - preferimos antes citar três elementos:

  • Em primeiro lugar, a participação. Delegados, observadores e convidados vindos de 40 países ajudaram a promover um debate enriquecido pela presença de todos os continentes, da Austrália ao Canadá, Argentina à Rússia, China à Grã-Bretanha e do Congo aos Estados Unidos. Para ter sucesso em trazer para o mesmo local durante cinco dias, de forma completamente auto-financiada e sem nenhum apoio institucional, tantas organizações, não é uma coisa fácil.

  • Depois o facto de pela primeira vez o novo Comité Internacional eleito nesta conferência ser constituído por mais de 40% de mulheres. E muitos elementos jovens. O Comité Internacional é um órgão "federal", o que significa que cada realidade nacional tem os seus representantes. Não há um "reequilíbrio" dos órgãos centrais - a História ensinou a esta corrente internacional que uma linha política não pode ser imposta por cima e ainda menos por um partido "guia" - a nova composição do Comité Internacional reflecte esta renovação geracional, uma mudança de mentalidade e uma nova realidade social e política.

  • O terceiro elemento foi o facto de as discussões políticas e organizacionais serem focadas no futuro. O Congresso virou-se para o Este, para a Ásia - onde a organização Filipina teve um papel fundamental -, a presença já mencionada dos Russos, o PPP da Polónia, que foi convidado, o grupo de Hong Kong na China e a nova organização japonesa, que está em construção. Mas acima de tudo a presença do Partido do Trabalho do Paquistão (LPP), uma organização significativa, que no seu último congresso, em Janeiro deste ano, terminou com um comício que juntou mais de dez mil trabalhadores, camponeses, e, especialmente, mulheres.

Renovação

Para a Quarta Internacional tudo isto foi uma renovação, um sintoma da ultrapassagem das dificuldades dos anos 90 e da primeira década do século XXI. Após uma série de abandonos e divisões e uma perda de perspectiva, a discussão acerca da possibilidade, ou ao menos, a vontade de considerar uma "nova internacional" - o fruto de um possível processo político, iniciado pelas escolhas feitas em França, pelo aparecimento de organizações como a Paquistanesa ou pelo debate tido na América Latina - deu origem a um novo ímpeto e a um novo debate internacional. O processo político que deve ser observado de forma cuidadosa é a construção de "novos partidos anticapitalistas", abrangentes e com influência de massas e que incluam "a resposta à crise do movimento dos trabalhadores e a necessidade da sua reconstrução". Uma perspectiva que tem um carácter orgânico e internacional sem no entanto resultar numa "linha" que deve ser seguida de forma obrigatória em todo o lado.

Uma perspectiva, que devemos reforçar, coincide com o desejo e o projecto de reforçar esta corrente política que existe há mais de 70 anos, mas que ainda mantém uma vitalidade considerável, e a prova disso é evidente quando é capaz de dedicar uma sessão de debate - e aprovar uma nova resolução - às alterações climáticas, consideradas uma das maiores novidades do século, e uma batalha decisiva no conflito entre o capital e o trabalho. Mais, esta atenção a novos temas e novos sujeitos de conflito foi já mostrada no anterior Congresso, que aprovou uma resolução sobre o movimento anti-globalização e sobre a questão LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgéneros). Não existem muitas organizações Marxistas revolucionárias que consigam integrar, ou mesmo aspirar a integrar, no seu programa, questões que foram tão controversas na história do movimento dos trabalhadores. De facto, não há outra.

Obviamente temos de manter um sentido de proporção: estamos a falar em várias partes do mundo de pequenas organizações, por vezes pequenos grupos, mesmo que sejam geralmente colectivos de activistas inseridos na sua realidade nacional, social e política. Mas o facto de pertencer a uma rede internacional ajuda à preservação de uma certa vitalidade e a possibilidade de manter um fio condutor e um espaço de discussão comum. Além de poder responder agora a novos desafios, como a possibilidade de debate acerca da Quinta Internacional, proposto pelo Governo da Venezuela. A natureza propagandística desta proposta e a complexidade de um convite feito por um governo não escapa a ninguém. Ao mesmo tempo, e isto foi dito mais que uma vez, a hipótese dá uma nova credibilidade e visibilidade à concepção de Internacional, o facto de esta dimensão ser crucial para confrontar a globalização capitalista e a sua crise. E não é coincidência que, além da proposta de Chavez, há outra, vinda do site Znet, e que tem entre os seus primeiros signatários pessoas como Noam Chomsky, Michael Albert, Vandana Shiva, Michael Löwy, John Pilger e muitos outros.

O Congresso decidiu participar neste debate mantendo intacta a sua concepção de Internacional, isto é, um corpo baseado num programa, numa perspectiva comum (a transcendência do capitalismo), democracia interna, eficiência social e absoluta independência dos governos. Ao mesmo tempo, o apelo da Marea Socialista para um encontro internacional em Caracas, a acontecer possivelmente em Junho, foi bem recebido. Outra questão que esteve no centro da discussão foi a questão dos movimentos sociais, com o compromisso da Cimeira de Cochabamba sobre o aquecimento global, convocada pelo Presidente Bolíviano Evo Morales e os vários Fóruns Sociais - o das Américas em Asunción, o Fórum Social Europeu em Istambul e o Fórum Social Mundial, em 2011, em Dakar, a cimeira Euro-Latino Americana em Madrid, em Maio próximo e a cimeira contra a NATO em Novembro de 2010, em Lisboa. Foi dado um novo ímpeto ao Instituto de Pesquisa e Educação em Amesterdão, o qual vai ter o apoio de dois novos centros "regionais", Manila e Islamabad, com uma óbvia importância simbólica.

Ao nível europeu, além do ênfase dado às cimeiras já mencionadas de Madrid e Lisboa, é importante pôr em marcha o processo de convergência da esquerda anticapitalista, para além de fórmulas e formas, a necessidade de avançar com reflexão comum e, acima de tudo, iniciar campanhas políticas comuns. Para ligar com isto o Congresso votou a favor da organização de conferências temáticas para discutir vários assuntos com a perspectiva de levar a cabo iniciativas comuns. A primeira reunião será dedicada à crise económica e particularmente como ser oposição efectiva em três aspectos: redundâncias e ataques às pensões e serviços públicos.

 


Salvattore Cannavó é membro do Secretariado da Quarta Internacional e faz parte da direcção da Sinistra Critica em Itália.

Tradução de Marco Marques.

 

 
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