| "O Brasil na cumplicidade do nosso olhar", por João Carlos |
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A trajectória do PT até ao segundo mandato do Governo Lula, a vitória da linha "governista" e o afastamento da oposição interna são temas abordados neste texto da revista Combate.
Olhar a Luz Não, não é só pela língua que partilhamos e por um património histórico e cultural comum. Não é sequer pela curiosidade natural sobre um país que foi uma colónia e que hoje regressa à metrópole exportando programas na televisão, técnicos de muitas artes, trabalhadores da construção e do sexo, gente de negócios e gente de trabalho que integra a mais recente vaga de imigração que aqui tenta a sua vida. O Brasil é, para além de tudo isso, um marco fundamental para quem procurou e procura ainda as hipóteses da renovação da esquerda e da afirmação do projecto socialista no mundo. E foi o Partido dosTrabalhadores o primeiro e principal responsável por essa atenção e pela enorme esperança que do Brasil percorreu o mundo. Pelo menos o nosso mundo. E também não foi só porque o nosso director entre as décadas de 80 e de 90 deu um contributo activo para a organização da Democracia Socialista (DS), a corrente de esquerda que juntava os militantes da IVa Internacional e que esteve desde o início na fundação do PT. O Brasil era o exemplo de que a esquerda não se reduzia à retórica dos herdeiros da social-democracia na administração do capitalismo, nem aos escombros do muro de Berlim. O Brasil e a afirmação do PT enquanto partido de massas capaz de disputar o poder e de vencer em importantes níveis do aparelho de Estado, era o sinal de alento que procurámos e que íamos confirmando no decorrer do tempo. A pluralidade do debate e da representação das suas muitas tendências internas, a vitalidade na articulação com os movimentos sociais, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e os Sem Terra em particular, o crescimento e reconhecimento popular em todo o imenso território onde o PT se afirmou como um projecto político coerente e o único capaz de romper com os ciclos do caciquismo tradicional e da corrupção através da política, foram momentos que aproximaram as duas margens do Atlântico. A conquista de São Paulo - centro financeiro e simbólico do capitalismo - que correu mal, e de Porto Alegre onde a prática do orçamento participativo na gestão municipal ainda hoje é referencia obrigatória para um novo contrato com as populações nas políticas locais. E a terra - sempre a terra! - capaz de alimentar grande parte das legiões de fome, mas improdutiva, especulativa, feudal. A distribuição da riqueza na 8ª economia do mundo, as elites e o povão, o sertão e a favela, os capitães da areia e os narcotraficantes, o PT condensava a realidade do Brasil para a nossa percepção. Respondia às grandes questões com coragem e coerência, apresentava todos os exemplos de novas práticas políticas e, sobretudo, confirmava-nos a possibilidade de que o que procurávamos por cá, essa recomposição/ reinvenção da esquerda, estava a acontecer com sucesso e falada em português do outro lado do oceano. Muitas vezes as páginas desta revista reflectiram essa esperança, compararando a informação, dando voz aos protagonistas desse percurso do PT, desde as suas origens em plena ditadura militar, na pequena e combativa base operária do interior do Estado de São Paulo, até às campanhas eleitorais dos anos 90 onde o PT juntava milhões de votos e o seu candidato à presidência, o operário metalúrgico, barbudo e sem um dedo, disputava taco a taco a corrida eleitoral para o Palácio do Planalto com os representantes da burguesia, das oligarquias todas e do FMI. Lusco-fusco Em 2002 com a eleição de Lula para a presidência, finalmente, a esperança de tantos anos ia sofrer o teste decisivo e o mais absoluto. O governo do Brasil era protagonizado por um homem que nos habituámos a sentir próximo, a admirar e a classificar como um dos nossos nesse longo fôlego da luta de classes em que nadamos com as nossas convicções. E o optimismo dos primeiros tempos contagiou, provavelmente, muitos dos militantes de esquerda pelo mundo fora. O processo dos Fóruns Sociais, que no seu modelo mundial tinha a cidade de Porto Alegre como berço, sentia-se vibrar com um porta-voz que literalmente simbolizava a máxima do Manifesto Comunista: “a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores ou não será”. O Fórum de 2002 na capital do Rio Grande do Sul foi ainda esse momento de enorme confiança e da representação do sentimento de que por ali alguma coisa de importante estava a acontecer. E mesmo com a polémica da altura por, na mesma semana, Lula ter discursado no Fórum Social Mundial e em Davos à mesa do G8, com os inimigos de toda a vida, mesmo com uma pequena parte da esquerda brasileira apreensiva com os sinais para a política económica do novo governo, a onda PT varreu o mundo e a América Latina em particular. Por cá, a comemoração da vitória eleitoral associou os membros desta revista e do PSR que viu nascer na sua sede o primeiro núcleo do PT em Portugal e que com ele partilhava o símbolo, essa estrela vermelha que subia ao poder no Brasil. Cinco anos depois desse momento vibrante, o Brasil, de Lula onde o PT é o partido charneira da coligação governamental nos primeiros meses de um segundo mandato, já não entusiasma e muito menos serve para exemplo. Já não é no Brasil que procuramos as hipóteses de ruptura, o cheiro das revoluções por justiça, terra e igualdade. Mesmo que esta geografia das emoções e da esperança não se tenha deslocado assim tanto. A Venezuela de Chávez e da nacionalização da extracção do petróleo, a Bolívia de Morales ou até os preparativos em Havana para o tempo depois de Fidel, são as novas experiências para onde os revolucionários de todo o mundo olham com calor e apreensão. Breu O Brasil perdeu a chama, normalizou-se, decepcionou, perdeu a garra e rendeu-se a um provável pragmatismo do poder que abdica de enfrentar o capitalismo em nome da preservação desse poder. A dívida ao FMI é paga regularmente e sem pestanejar, as garantias dadas ao grande capital financeiro são cumpridas religiosamente e as políticas de apoio social implementadas pelo governo são gotas de água no oceano de desigualdade em que o país mergulha. Para aumentar a depressão, o PT no governo federal comportou-se como todos os partidos tradicionais do sistema político, trocando influências, comprando votos a deputados, transaccionando malas de dinheiro entre interesses privados e os cofres do partido. A ética que foi uma palavra fundamental para o PT nos anos 80 e 90, transformou-se para dar lugar ao monstro que sempre emergiu na política brasileira: a corrupção. Simultaneamente o partido sofria uma purga interna das suas vozes mais críticas. A coragem da senadora Heloísa Helena, também ela da DS, ficou marcada na memória colectiva que, no Brasil e em todo o lado, constitui o património da esquerda socialista. Em Novembro último, Lula deu uma de especialista em evolução. Num discurso de louvor a Delfim Neto, ministro da economia durante a ditadura militar, garantiu que na “evolução da espécie humana quem é mais de direita vai ficando mais de centro, quem é mais de esquerda vai ficando social-democrata, e as coisas vão confluindo de acordo com a quantidade de cabelos brancos que você vai tendo e de acordo com a responsabilidade que você tem”. Na mesma ocasião o presidente garantia que uma pessoa com cabelos brancos e que ainda seja de esquerda “está com problemas”. Rasca, injusto com a sua história e de todos os seus companheiros, falso. Lula fazia estas declarações poucos dias depois do final da segunda volta das eleições que o reelegeram. Campanha em que arregaçou as mangas e tirou a gravata para pedir votos ao povão, cobrando os resultados das políticas sociais que implementou e ameaçando com o regresso da direita mais dura e impiedosa. Ao contrário da campanha na primeira volta em que o candidato era a pose de presidente e falava para o centro, a segunda volta viu renascer um Lula que de repente voltava às suas origens e se misturava com o povo humilde garantindo que era o último obstáculo e o mais determinado à globalização capitalista. Para a esquerda do PT esta campanha foi um alivio e prenúncio de um novo fôlego nas políticas do segundo mandato capazes de inverter o ciclo de descrédito em que o partido tinha mergulhado. Mas o marketing de esquerda para o segundo turno era calculado da mesma maneira que a pose de estadista para o primeiro. O conteúdo das suas promessas e declarações era o que menos importava na busca profissional dos votos e das tendências do eleitorado. A tinta que o candidato pôs no cabelo para o embranquecer sai com a lavagem enquanto que as suas palavras já foram levadas pelo vento. Amanhecer outra vez Hoje para a esquerda do PT que procura ganhar força e conseguir um novo compromisso entre o partido e o governo, as palavras chave são superação do neoliberalismo, refundação socialista do PT e crise de corrupção ética e programática. Num documento subscrito por centenas de signatários, entre os quais os principais dirigentes da Democracia Socialista, mas também pessoas como Olívio Dutra, presidente do partido no Rio Grande do Sul e figura histórica da tendência maioritária ou Tarso Genro ex-ministro do primeiro governo Lula e ex-presidente nacional do PT, o objectivo é a discussão que prepara o 3º Congresso e a viragem que consideram necessária nos caminhos do PT. A crise tem sintomas que os signatários apontam: “o distanciamento das organizações de base e do mundo do trabalho, e uma crescente substituição dos valores da solidariedade e da igualdade pelo pragmatismo”. Avisos: “o Partido não é um apêndice do Estado e o estado não pode subordinar-se ao Partido(...) É dever do nosso Partido superar o conceito de hegemonia absoluta, fundado na existência de um núcleo dirigente isolado, que se julga capaz de definir as regras partidárias e as respectivas políticas, tomando deliberações prévias sem o debate necessário nas instâncias formais”. E tem ainda propostas que farão a força deste grupo ao Congresso: Nova política monetária do Banco Central com distribuição dos rendimentos e expansão do mercado interno de consumo popular; controlo de entrada e saída do capital financeiro; democratização dos meios de comunicação com fortalecimento dos espaços públicos e comunitários, imprensa alternativa e softwares livres; aprofundamento da reforma agrária baseada na agricultura familiar e na cooperação; dimensão ambiental como parâmetro estratégico do desenvolvimento; reforma política que promova o financiamento público das campanhas. O mesmo texto previne que é preciso instituir no Partido uma sustentação financeira transparente e controlada pelos petistas, que dependa, predominantemente, de suas próprias contribuições. São, quase sempre, palavras e ideias fortes, de gente com coragem e decidida a mudar o partido. Até onde irão e quando tempo a sua firmeza se manterá incólume perante os desafios colocados pelo pragmatismo do poder, é a questão que está em aberto. Como olharemos para o que se passa no Brasil, com tudo o que ficou fora deste texto, será a forma como olharemos para nós mesmos nos caminhos que escolhermos trilhar sempre que a proximidade com o poder ameaçar fazer-nos esquecer esse objectivo final que é a destruição comunista do estado. * João Carlos é dirigente da APSR e editor desta revista. |
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